Mostra Políticas do Cinema Moderno no SESC Palladium

É com uma alegria enorme que o cineclube comum anuncia a mostra Políticas do Cinema Moderno, que acontecerá no Cine SESC Palladium, em Belo Horizonte, entre os dias 23 de outubro e 4 de dezembro, sempre às quartas-feiras às 20h.
A mostra será uma oportunidade de redescobrir um conjunto muito importante de filmes, que permanece ainda bastante desconhecido no Brasil, apesar de sua inegável potência estética e política. Todas as sessões serão comentadas por pesquisadores, críticos e realizadores de Belo Horizonte.
Confiram abaixo a apresentação da mostra e a programação.

cineclube comum - políticas do cinema modernoEntre a segunda metade dos anos 1960 e o início da década seguinte, a história do cinema viveu uma época tão importante quanto desconhecida: no auge da modernidade cinematográfica, surgiam de todos os cantos do planeta realizadores independentes que aliavam, em suas obras, a mais densa reflexão política à mais vigorosa experimentação estética. Contrariando uma concepção restrita da “arte engajada”, preocupada com a veiculação de mensagens através de narrativas banais e pouco inventivas, cineastas como o estadunidense Robert Kramer, o casal francês Jean-Marie Straub e Danielle Huillet, os italianos Marco Bellocchio e Bernardo Bertolucci, o polonês Jerzy Skolimowski, a tcheca Vera Chytilova, o húngaro Miklós Jancsó e os japoneses Yoshishige Yoshida e Nagisa Oshima realizaram obras ao mesmo tempo contestadoras e belas, críticas e experimentais.
Num momento em que o mundo era sacudido pela efervescência militante, esses jovens realizadores ousavam incidir, a um só tempo, sobre os rumos do cinema e da política. Ao longo do século XX – e, em alguns casos, chegando até a contemporaneidade –, todos eles seriam autores de trajetórias extensas e incontornáveis, que colocariam seus nomes, de uma vez por todas, na história da arte cinematográfica e no coração de cinéfilos de todo canto.
A mostra que aqui propomos busca dar visibilidade e promover a discussão, no cenário belo-horizontino, de um período fundamental da história do cinema. Em seis sessões comentadas – realizadas sempre às quartas-feiras, às 20h – veremos e debateremos alguns filmes que constituem um pequeno panorama de uma época em que, como escreveram os críticos Jean Narboni e Jean-Louis Comolli, “a política não era inimiga da beleza”. A seleção de obras que apresentamos a seguir é fruto de um intenso trabalho de pesquisa, e inclui uma diversidade de filmes que vão do documentário militante à comédia de humor negro, do drama histórico ao delírio iconoclasta – sempre tendo como fio condutor a convivência entre ousadia formal e engajamento político.
Embora esses filmes tenham sido reconhecidos, à época, tanto por festivais prestigiosos como os de Veneza e Cannes quanto por revistas influentes como a francesa Cahiers du Cinéma e a estadunidense Film Culture, sua circulação em território brasileiro ainda permanece muito aquém de sua relevância. A maioria das obras sequer foi lançada em DVD no Brasil, e algumas delas só foram exibidas, de forma esparsa, em algumas poucas ocasiões. Ao propor a mostra, pretendemos contribuir com a constituição, em Belo Horizonte, de um território de exibição e reflexão em torno de um cinema vivo e pulsante, que não tem encontrado lugar nas salas existentes na cidade.

mostraPROGRAMAÇÃO E SINOPSES

Quarta-feira | 23-10 | 20h [Sessão de Abertura]
NÃO RECONCILIADOS OU ONDE REINA A VIOLÊNCIA, SÓ A VIOLÊNCIA PODE AJUDAR
| Nicht versöhnt oder Es hilft nur Gewalt, wo Gewalt herrscht | Jean-Marie Straub | 1965 | Alemanha | 55’
Na definição de Straub, “uma pura reflexão cinematográfica, moral e política, sobre os últimos cinqüenta anos da vida alemã”. Baseado em um romance de Henrich Böll, o filme trata da história de uma família de classe média, de 1910 ao pós-guerra, passando pela ascensão do nazismo. A construção de uma visada crítica sobre o passado – sempre de um ponto de vista presente – se encarna na desconstrução do modelo narrativo clássico, que resulta em uma estrutura elíptica fascinante e desafiadora. Só um ato de violência cinematográfica pode responder à violência da história.
Após a sessão, debate com o pesquisador João Dumans.

Quarta-feira | 30-10 | 20h
SALMO VERMELHO
| Még kér a nép | Miklós Jancsó | 1972 | Hungria | 87’
Nos estertores do século XIX, trabalhadores de uma pequena comuna húngara entram em greve. Frente às contradições da história, o estilo inconfundível de Jancsó – baseado em longos planos-sequência de uma expressividade impressionante – atinge seu mais alto grau de apuro, o que lhe rendeu o prêmio de direção no Festival de Cannes em 1972. As ideias de Engels servem de inspiração para uma luta que se materializa nos corpos e se incandesce na música.
Após a sessão, debate com o crítico João Toledo.

Quarta-feira | 06-11 | 20h
O ENFORCAMENTO
| Kōshikē | Nagisa Oshima | 1968 | Japão | 117’
Inspirado em uma história que estampou as manchetes da época, o filme narra a trajetória de um jovem de origem coreana que, condenado à morte por estupro e assassinato, sobrevive ao enforcamento. Essa estranha situação vai se tornando mais e mais absurda, transformando-se em uma inventiva comédia de humor negro. Explorando o insólito de uma situação em que sonho e realidade se contaminam, surge um experimento dramático poderoso, que constitui, ao mesmo tempo, uma sátira política sobre a pena de morte e o Japão dos anos 60.
Após a sessão, debate com o crítico Ewerton Belico.

Quarta-feira | 13-11 | 20h
ICE
| Robert Kramer | 1969 | Estados Unidos | 132’
Em um futuro não muito distante, um grupo de jovens integrantes do Comitê Nacional de Organizações Revolucionárias prepara-se para sair da clandestinidade e incorporar ações de guerrilha em Nova York. Enquanto isso, no México, a Frente de Libertação combate o império distópico dos Estados Unidos da América. Trabalhando na fronteira entre o documentário militante e a ficção científica, o filme foi descrito pelo crítico e cineasta Jonas Mekas como “o mais original e significante filme narrativo americano dos anos sessenta”.
Após a sessão, debate com o pesquisador César Guimarães.

 Quarta-feira | 20-11 | 20h
AS MARGARIDAS
| Sedmikrasky | Vera Chytilová | 1966 | República Tcheca | 74’
Maria I e Maria II são duas jovens que decidem se rebelar contra um mundo aristocrático e convencional, e embarcam em uma cruzada anárquica e iconoclasta pelas festas e banquetes da alta sociedade. Feminismo, encenações lúdicas, cores berrantes e psicodelia visual e sonora compõem uma das principais obras do movimento que ficou conhecido como a Nouvelle Vague Theca. Poucas vezes o cinema foi tão adepto do vandalismo.
Após a sessão, debate com a pesquisadora Carla Maia.

Quarta-feira | 04-12 | 20h [Sessão de Encerramento]
O ATO FINAL
| Deep End | Jerzy Skolimowski | 1970 | Inglaterra | 90’
Um jovem de quinze anos de idade consegue um emprego em uma sauna, onde se torna obcecado por uma colega de trabalho. Apesar de ela ser comprometida, o rapaz faz o possível para sabotar o relacionamento, a ponto de persegui-la, tornando-se cada vez mais desesperado pela mulher. Filmando pela primeira vez na Inglaterra e tendo Jane Asher no papel principal, o polonês Skolimowski nos apresenta uma narrativa entre a comédia e o drama, entre o delírio e a psicose. Em uma entrevista concedida em 1982, o cineasta David Lynch considerava O ato final “o único filme digno filmado em cores”.
Após a sessão, debate com o cineasta Affonso Uchôa.

Expediente
Concepção e projeto: Mariana Souto e Victor Guimarães
Curadoria da mostra: Victor Guimarães
Coordenação de Produção: Lygia Santos
Assistência de produção: Amina Jorge e Vanessa Maciel

CINECLUBE COMUM
O Cineclube Comum nasceu em 2012 a partir de um desejo de seus programadores, Mariana Souto e Victor Guimarães, de fomentar a exibição e a discussão de obras cinematográficas relevantes em nosso panorama. Em parceria com a AIC – Associação Imagem Comunitária –, ONG onde as sessões aconteciam em um quintal com tela e projetor, o Cineclube trouxe filmes como “Juízo” (Maria Augusta Ramos, 2007), “Jogo de Cena” (Eduardo Coutinho, 2007), “A cidade é uma só?” (Adirley Queirós, 2011) e “A falta que me faz” (Marília Rocha, 2009), esta última com presença da diretora. As sessões eram pensadas de maneira a promover formação de público, expansão de repertório cinematográfico, mas também funcionavam como um espaço de discussão e formação de profissionais do audiovisual. Todas as sessões tiveram debates ricos e densos, com intensa participação do público presente.

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